Os 100 mais da Abraccine

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Limite: o melhor filme brasileiro

A Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) irá lançar o primeiro livro da instituição no próximo ano. Será uma publicação com os 100 melhores filmes brasileiros segundo eleição do corpo de críticos que integram a entidade. Para tanto, foi necessário primeiramente realizar um certame, no qual cada crítico escolheu seus 25 favoritos, para então decidir quais seriam esses 100 filmes. Deu 101. Guerra Conjugal, de Joaquim Pedro de Andrade, e Bar Esperança, de Hugo Carvana, ficaram empatados no último lugar.

No primeiro posto do ranking ficou Limite, o já mítico ensaio poético-visual de Mário Peixoto de 1931. O diretor mais recorrente foi Glauber Rocha, entrando com cinco filmes (Deus e o Diabo, Terra em Transe, Dragão da Maldade, Idade da Terra e Di).

Listas, sobretudo rankings, estão aí para serem debatidas, questionadas, curtidas, compartilhadas, repudiadas etc. O mais importante deste rol da Abraccine, no entanto, é observar a diversidade do cinema brasileiro contemplada  de forma a espantar de uma vez por todas a pecha de que crítico não gosta de “filme de mercado” e, principalmente, para superarmos a boba e delirante ideia de que essa tal Crítica compõe uma única massa homogênica que “só gosta disso” e “odeia aquilo outro”.

De 1 a 100 (ou melhor, 101), entraram filmes dos quais não gosto e ficaram fora preciosidades. Ao meu ver. O conjunto do corpo de críticos em sua diversidade de leituras, origens, pensamentos, estudos e afetos ao final corrobora o cinema máximo do Brasil: que é pobre, que é rico, que é maldido, que é popular, que é urbano, que é rural, que é p&b, que é colorido, que é ficção, que é documentário, que é curta, que é longa, que é cômico, que é trágico, que é velho, que é novo, que é mudo, que é falado.

Está aí:

1. Limite (1931), de Mario Peixoto
2. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha
3. Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos
4. Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho
5. Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha
6. O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla
7. São Paulo S/A (1965), de Luís Sérgio Person
8. Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles
9. O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte
10. Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade
11. Central do Brasil (1998), de Walter Salles
12. Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), de Hector Babenco
13. Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado
14. Eles Não Usam Black-Tie (1981), de Leon Hirszman
15. O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho
16. Lavoura Arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho
17. Jogo de Cena (2007), de Eduardo Coutinho
18. Bye Bye, Brasil (1979), de Carlos Diegues
19. Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias
20. São Bernardo (1974), de Leon Hirszman
21. Iracema, uma Transa Amazônica (1975), de Jorge Bodansky e Orlando Senna
22. Noite Vazia (1964), de Walter Hugo Khouri
23. Os Fuzis (1964), de Ruy Guerra
24. Ganga Bruta (1933), de Humberto Mauro
25. Bang Bang (1971), de Andrea Tonacci
26. A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1968), de Roberto Santos
27. Rio, 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos
28. Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho
29. Memórias do Cárcere (1984), de Nelson Pereira dos Santos
30. Tropa de Elite (2007), de José Padilha
31. O Padre e a Moça (1965), de Joaquim Pedro de Andrade
32. Serras da Desordem (2006), de Andrea Tonacci
33. Santiago (2007), de João Moreira Salles
34. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), de Glauber Rocha
35. Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro (2010), de José Padilha
36. O Invasor (2002), de Beto Brant
37. Todas as Mulheres do Mundo (1967), de Domingos Oliveira
38. Matou a Família e Foi ao Cinema (1969), de Julio Bressane
39. Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto
40. Os Cafajestes (1962), de Ruy Guerra
41. O Homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga
42. A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral
43. Sem Essa Aranha (1970), de Rogério Sganzerla
44. SuperOutro (1989), de Edgard Navarro
45. Filme Demência (1986), de Carlos Reichenbach
46. À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), de José Mojica Marins
47. Terra Estrangeira (1996), de Walter Salles e Daniela Thomas
48. A Mulher de Todos (1969), de Rogério Sganzerla
49. Rio, Zona Norte (1957), de Nelson Pereira dos Santos
50. Alma Corsária (1993), de Carlos Reichenbach
51. A Margem (1967), de Ozualdo Candeias
52. Toda Nudez Será Castigada (1973), de Arnaldo Jabor
53. Madame Satã (2000), de Karim Ainouz
54. A Falecida (1965), de Leon Hirzman
55. O Despertar da Besta – Ritual dos Sádicos (1969), de José Mojica Marins
56. Tudo Bem (1978), de Arnaldo Jabor (1978)
57. A Idade da Terra (1980), de Glauber Rocha
58. Abril Despedaçado (2001), de Walter Salles
59. O Grande Momento (1958), de Roberto Santos
60. O Lobo Atrás da Porta (2014), de Fernando Coimbra
61. O Beijo da Mulher-Aranha (1985), de Hector Babenco
62. O Homem que Virou Suco (1980), de João Batista de Andrade
63. O Auto da Compadecida (1999), de Guel Arraes
64. O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto
65. A Lira do Delírio (1978), de Walter Lima Junior
66. O Caso dos Irmãos Naves (1967), de Luís Sérgio Person
67. Ônibus 174 (2002), de José Padilha
68. O Anjo Nasceu (1969), de Julio Bressane
69. Meu Nome é… Tonho (1969), de Ozualdo Candeias
70. O Céu de Suely (2006), de Karim Ainouz
71. Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert
72. Bicho de Sete Cabeças (2001), de Laís Bondanzky
73. Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda
74. Estômago (2010), de Marcos Jorge
75. Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes
76. Baile Perfumado (1997), de Paulo Caldas e Lírio Ferreira
77. Pra Frente, Brasil (1982), de Roberto Farias
78. Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1976), de Hector Babenco
79. O Viajante (1999), de Paulo Cezar Saraceni
80. Anjos do Arrabalde (1987), de Carlos Reichenbach
81. Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina
82. O País de São Saruê (1971), de Vladimir Carvalho
83. A Marvada Carne (1985), de André Klotzel
84. Sargento Getúlio (1983), de Hermano Penna
85. Inocência (1983), de Walter Lima Jr.
86. Amarelo Manga (2002), de Cláudio Assis
87. Os Saltimbancos Trapalhões (1981), de J.B. Tanko
88. Di (1977), de Glauber Rocha
89. Os Inconfidentes (1972), de Joaquim Pedro de Andrade
90. Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1966), de José Mojica Marins
91. Cabaret Mineiro (1980), de Carlos Alberto Prates Correia
92. Chuvas de Verão (1977), de Carlos Diegues
93. Dois Córregos (1999), de Carlos Reichenbach
94. Aruanda (1960), de Linduarte Noronha
95. Carandiru (2003), de Hector Babenco
96. Blá Blá Blá (1968), de Andrea Tonacci
97. O Signo do Caos (2003), de Rogério Sganzerla
98. O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006), de Cao Hamburger
99. Meteorango Kid, Herói Intergaláctico (1969), de Andre Luis Oliveira
100. Guerra Conjugal (1975), de Joaquim Pedro de Andrade (*)
101. Bar Esperança, o Último que Fecha (1983), de Hugo Carvana (*)

(*) Empatados na última colocação, com o mesmo número de pontos

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Hitchcock revela os bastidores de um clássico do horror

Por Anna Beatriz Lisbôa

Os bastidores de Psicose (1960) são revelados em Hitchcock, que estreia nessa sexta-feira. O filme de Sacha Gervasi tem Anthony Hopkins no papel do mestre do suspense em busca de um novo projeto, juntamente com sua fiel consultora e esposa Alma Reville (Helen Mirren). Ele acaba de sair do sucesso comercial de Intriga Internacional (1959), um charmoso thriller de espionagem estrelado por Cary Grant, que traz humor, suspense, sensualidade e inventivas cenas de perseguição nas doses certas para agradar o público. Misturando incesto, travestimo e assassinatos em série, Psicose era o oposto de tudo isso. Uma história baseada em fatos reais perturbadores demais para se transformar em entretenimento no cinema. Apenas Hitchcock seria capaz de vender a sinistra história de Ed Gein, o maníaco que inspirou Norman Bates e – pior ainda – utilizando o ponto de vista do assassino.

Para fazer Psicose virar realidade, o diretor precisou enfrentar a relutância do estúdio, dificuldades de financiamento e as imposições da censura, que quase retalhou uma das mais famosas cenas de assassinato no cinema. As tensões se agravam quando Alma distrai-se com um projeto paralelo, deixando Psicose em segundo plano em suas prioridades.


Embora tenha boas intenções, revelando o talento e a astúcia de Alma Reville – crucial para entender a genialidade por traz da obra de Hitchcock – o filme se perde a potência com a falta de foco. Gervasi (roteirista de O Terminal, aqui dirigindo seu primeiro longa de ficção) perde o controle ao querer abordar o making of de Psicose, a relação do diretor com a mulher, o envolvimento de Alma com Whitfield Cook (Danny Huston), roteirista de Pacto Sinistro (1951) e ainda a relação delirante do diretor com Ed Gein. Quanto mais Alma se envolve no projeto com Whitfield, mais a figura de Ed Gein aparece em sonhos para aconselhar Hitchcock, o que traz um caráter fantástico e sombrio ao filme.

Anthony Hopkins contribui com uma qualidade sinistra ao papel de Hitchcock, embora a maquiagem pouco contribua para a caracterização do personagem. Ele consegue transmitir os ciúmes e as obsessões (por comida, pelas loiras) do diretor através de sua expressão impassível. Já Helen Mirren é exuberante demais para interpretar a pequena Alma, modesta até na altura de 1,52 m.

Cotação: 2/5

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Divagações sobre a brincadeira de “acertar” o Oscar

Por Guilherme Lobão

Argo, o favorito. Se é que vale o esforço de especular demais sobre o Oscar

“Cobrir” o Oscar, importante ou não que seja, é um hábito da imprensa cinematográfica. Pergunto-me há algum tempo se faz sentido cultivar este costume. Afinal, poucos (ao menos por aqui, no Brasil) cobrem de fato, in loco. Eu mesmo “cubro” anualmente a cerimônia, em frente da TV – antes para publicar no jornal de dois dias depois (?), em seguida para o programa de rádio do dia seguinte e para as redes sociais e blogs de imediatamente.

Pessoalmente, é uma diversão a que me habituei, por menos que faça qualquer diferença neste mundo de Deus. Um joguinho que não suporto mais, no entanto, viciei e gostaria de zerar. Com zerar, refiro-me a acertar as bolinhas numeradas. Afinal, dos filmes de que mais gosto num ano, poucos ou mesmo nenhum entra na minha lista de indicados.

Tiro o delay que há entre os lançamentos nos EUA e Brasil (alguns meses de diferença, que fazem com que um filme elegível de 2012, por exemplo, se torne um lançamento de 2013 por aqui), e eis que minha lista de indicados a melhor filme reúne títulos como Drive, Habemus Papam, Holy Motors, Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, Um Alguém Apaixonado… de concorrentes a este Oscar, apenas considerei As Aventuras de Pi e No (em língua estrangeira) para a principal categoria do meu Academy Award pessoal.

Esta longa introdução é para dirimir a seriedade ou mesmo importância de se especular quem leva ou não a estatueta de Hollywood. Afinal, embarco nesta brincadeira porque sabemos que Oscar é um joguinho de lobby entre estúdios, do qual leva quem faz a melhor campanha.

E a melhor deste ano é a de Argo, thriller político de Ben Affleck sobre o ousado resgate de diplomatas americanos em solo iraniano por meio da produção de uma ficção cinetífica de mentirinha. Gosto do filme. É um roteiro redondo, com uma montagem habilidosa e núcleos dramáticos (inclua-se o alívio cômico de John Goodman e Alan Arkin) bem equilibrados, mas não tem fôlego para ser meu melhor filme de 2012. Não que haja qualquer relevância no que penso sobre o assunto.

Acredito que haja haters de Argo entre os votantes da Academia. Gente que, provavelmente, encheu o saco de ver a supervalorização do filme arrematando toda sorte de prêmios, uma avalanche que vem de Critics Choice, Globo de Ouro, DGA (diretor), PGA (filme), SAG (elenco), WGA (roteiro), até Bafta. Ufa! Seria um contrasenso sair sem o Oscar, que basicamente existe para coroar a tal campanha.

E, então, temos Lincoln. É um Spielberg. É de marca. Ainda tem força para mexer com os velhinhos da Academia? Ou melhor, ainda há velhinhos? Talvez. Nunca é sensato descartá-lo ou subestimá-lo. Fato é que virou zebra e seria uma surpresa interessante para dar uma chacoalhada na premiação, embora eu não esteja no time dos admiradores do filme (solene e sisudo demais).

E Stevie vai levar o Oscar de melhor diretor – seria até heresia esnobá-lo, sem a concorrência justa (no universo de Hollywood, claro) de Kathryn Bigelow e Ben Affleck, ambos não indicados. Não queriam correr o risco de deixar Spielberg a ver navios. Seria isso?

Curioso ver Amor, do austríaco Michael Haneke, tão prestigiado. Preferia tê-lo visto reconhecido pela Academia por Caché. Entrou no sistema de cotas do Oscar, como Cidade de Deus em 2003 e alguns outros gringos que pitam aqui e acolá. Foi indicado em cinco categorias, incluindo melhor filme. Que Haneke se dê por satisfeito com o prêmio de “língua estrangeira”. É o Oscar alargando fronteiras, mas resguardando-se: “só venha até aqui, não ouse sentar-se na janela”.

Ah, como queria ver nesta categoria algo como Holy Motors (que não seria indicado nem se os velhinhos quisessem, porque a França mandou Intocáveis pra lá)…

Uma categoria curiosa está a de ator coadjuvante. Esta, por incrível que pareça, é imprevisível. Não há claramente favorito nem zebra. São cinco atores tremendos, em performances muito diversas, todos com um Oscar (ao menos) na bagagem: Tommy Lee Jones (Lincoln), Christoph Waltz (Django Livre),Philip Seymour Hoffman (O Mestre), Robert DeNiro (O Lado Bom da Vida) e Alan Arkin (Argo).

A única certeza é de que Arkin não leva. A própria indicação dele é muito questionada nos bastidores de Hollywood. Entre os outros quatro, tudo é possível. Waltz e Lee Jones vêm com o favoritismo relegado pelos prêmios-termômetro do Globo de Ouro e SAG, respectivamente. DeNiro, só de ser indicado, representa ameaça – embora considere sua performance convencional (a menos que se compare com a avalanche de bobajadas a que ele tem se dedicado ultimamente). E Philip Seymour Hoffman, por mais que tenham enterrado a campanha de O Mestre, arrebenta mais que todos os seus pares na competição e não pode ser ignorado.

Na categoria de roteiro, tanto Argo (em adaptado) como A Hora Mais Escura (original) são boas opções para receber o prêmio. Entregar a estatueta para o primeiro é uma questão de lógica, para validar sua consagração, uma vez que ficará sem o troféu de direção – repete-se 2005, quando Ang Lee arrematou o Oscar, mas o filme (Segredo de Brokeback Mountain) perdeu para Crash – No Limite, simplesmente o pior dos cinco candidatos a melhor filme (falta de opção não foi). Tudo bem, então.

O roteiro original de Mark Boal para a obra de Bigelow é realmente muito bom. Prefiro o texto de Wes Anderson para Moonrise Kingdom. É uma possibilidade. O Oscar tem preferido premiar os idiossincráticos nesta categoria (Sideways, Brilho Eterno, Juno, Pequena Miss Sunshine, Encontros e Desencontros, Meia-Noite em Paris). Anderson, certamente, não seria um peixe fora d’água por aqui. E ainda há Tarantino, que é Tarantino. O que joga contra ele é o fato de ter levado nesta categoria por Bastardos Inglórios recentemente. Os votantes da Academia invariavelmente colocam essa conta na balança.

Atriz coadjuvante é uma categoria barbada: Anne Hathaway, por Os Miseráveis. Mais justo seria concorrer ao Grammy pela sua performance, mas tudo bem. Brincadeira à parte, ela faz um bom trabalho sim e a concorrência é mínima. Helen Hunt trabalha melhor, mas num filme apagadinho (As Sessões). Jackie Weaver, confesso, não ficou registrada na minha cabeça depois da sessão de O Lado Bom da Vida. Sally Field faz aquele melodrama todo que só ela sabe fazer, mas acho que não colou. Amy Adams está bem. Diminui um pouco seu brilho estar ladeada por Joaquin Phoenix, no papel da sua vida, e Seymour Hoffman. Ainda não é sua vez.

Entre atores, a coisa está menos concorrida. Daniel Day-Lewis leva fácil, embora ainda torça para ver Phoenix ser devidamente reconhecido por seu intenso trabalho nas mãos de Paul Thomas Anderson. Diria que é o underacting contra o overacting. Day-Lewis está ótimo como sempre (à exceção de Nine) e contido como manda o personagem. Phoenix mergulha de cabeça e inventa o personagem, se entrega – tal como fizera Day-Lewis em Sangue Negro, do mesmo Anderson.

Na categoria feminina, há embate de gerações. A mais nova a concorrer ao Oscar contra a mais velha. Mas a pequenina Quvenzhané Wallis, de 9 anos, não tem chances. Imagina o coitado do Jean Dujardin abrir o resultado de melhor atriz e ter de falar, de improviso: “E o Oscar vai para Qu….”. Tudo indica que o caminho está asfaltado para a jovem Jennifer Lawrence, mas insisto em depositar minhas fichas na idosa Emmanuelle Riva, 86 anos. Primeiro, está brilhante em Amor; segundo, pode ser uma forma de reforçar o prestígio ao filme, que já vai levar troféu de lingua estrangeira (no questions asked); e, terceiro, a Academia de vez em quando se sensibiliza a fazer justiça.

Na categorias técnicas, não tenho lá muito o que comentar. Sou acometido de enorme preguiça da dobradinha figurino/direção de arte. Não pelas especialidades, mas pelo que representam no Oscar. São categorias que servem para dar prêmios de consolo às produções de época sem fôlego para concorrer a melhor filme. E é o que vai acontecer aqui com Anna Karenina. Maquiagem sofre de problema semelhante. Desta vez, na falta de algo melhor, vai O Hobbit mesmo.

Efeitos visuais não me interessam muito, embora tenha ficado boquiaberto com As Aventuras de Pi e imagino que não há páreo para ele (nem mesmo em fotografia, embora o acusem de abusar de “after effects”). Edição/mixagem de som é outra que me limito em oferecer crítica mais qualificada. Deve dar Argo ou Skyfall na primeira e podemos fechar nos Miseráveis na segunda, só pelo trabalho de captação direta de áudio da cantoria.

A melhor trilha também acredito que vá para Pi, mas a categoria reúne feras como John Williams e Alexandre Desplat. Skyfall é seu maior opositor. E a música é um dos fortes deste 007. Adele já pode até subir para pegar o seu Oscar de melhor canção original. É outra barbada.

Documentários e curtas, por mim, teriam mais destaque. No entanto, parece-me que a seleção é feita com muito descaso. São filmes “menores” (no caso dos curtas, literalmente). O esforço para conseguir assisti-los por aqui na maioria das vezes não compensa. É muito filme ruim normalmente. Os curtas de animação são legais.

Só preciso lembrar-me, para evitar essa ansiedade boba, que Oscar é festa, não festival. Há uma grande diferença. Não busca o melhor filme em competição; apenas celebra o da vez.

Minhas apostas e lista de indicados:

Melhor filme

Quem ganha: Argo
Quem pode ganhar: Lincoln
Quem deveria ganhar: As Aventuras de Pi

    Argo
    Django Livre
    As Aventuras de Pi
    Lincoln
    A Hora Mais Escura
    Os Miseráveis
    O Lado Bom da Vida
    Indomável Sonhadora
    Amor

Melhor ator

Quem ganha: Daniel Day-Lewis
Quem pode ganhar: Joaquin Phoenix
Quem deveria ganhar: Joaquin Phoenix

    Daniel Day-Lewis – Lincoln
    Joaquin Phoenix – O Mestre
    Denzel Washington – O Voo
    Bradley Cooper – O Lado Bom da Vida
    Hugh Jackman – Os Miseráveis

Melhor atriz

Quem ganha: Emmanuelle Riva
Quem pode ganhar: Jennifer Lawrence
Quem deveria ganhar: Emmanuelle Riva

    Jessica Chastain -A Hora Mais Escura
    Naomi Watts – O Impossível
    Jennifer Lawrence – O Lado Bom da Vida
    Emmanuellle Riva – Amor
    Quvenzhané Wallis – Indomável Sonhadora

Melhor ator coadjuvante

Quem ganha: Tommy Lee Jones
Quem pode ganhar: Robert DeNiro e Christoph Waltz
Quem deveria ganhar: Philip Seymour Hoffman

    Alan Arkin – Argo
    Philip Seymour Hoffman – O Mestre
    Tommy Lee Jones – Lincoln
    Christoph Waltz – Django Livre
    Robert De Niro – O Lado Bom da Vida

Melhor atriz coadjuvante

Quem ganha: Anne Hathaway
Quem pode ganhar: Helen Hunt
Quem deveria ganhar: Helen Hunt

    Amy Adams – O Mestre
    Sally Field – Lincoln
    Anne Hathaway – Os Miseráveis
    Helen Hunt – As Sessões
    Jacki Weaver – O Lado Bom da Vida

Melhor diretor

Quem ganha: Steven Spielberg
Quem pode ganhar: Michael Haneke
Quem deveria ganhar: Desses, Steven Pielberg; mas deveria ser a não-indicada Kathryn Bigelow

    Ang Lee – As Aventuras de Pi
    Steven Spielberg – Lincoln
    Michael Haneke – Amor
    David O. Russell – O Lado Bom da Vida
    Benh Zeitlin – Indomável Sonhadora

Melhor roteiro original

Quem ganha: A Hora Mais Escura
Quem pode ganhar: Moonrise Kingdom e Django Livre
Quem deveria ganhar: Moonrise Kingdom

    Mark Boal – A Hora Mais Escura
    Quentin Tarantino – Django Livre
    Michael Haneke – Amor
    Wes Anderson, Roman Coppola – Moonrise Kingdom
    John Gatins – O Voo

Melhor roteiro adaptado

Quem ganha: Argo
Quem pode ganhar: Lincoln
Quem deveria ganhar: As Aventuras de Pi

    Chris Terrio – Argo
    Lucy Alibar, Benh Zeitlin – Indomável Sonhadora
    David Magee – As Aventuras de Pi
    Tony Kushner –  Lincoln
    David O. Russell – O Lado Bom da Vida

Melhor filme em lingua estrangeira

Quem ganha: Amor
Quem pode ganhar: Kon-Tiki
Quem deveria ganhar: No

    Amor (Áustria)
    A Royal Affair (Dinamarca)
    Kon-Tiki (Noruega)
    No (Chile)
    War Witch (Canadá)

Melhor longa animado

Quem ganha: Detona Ralph
Quem pode ganhar: Valente
Quem deveria ganhar: Frankenweenie

    Valente
    Frankenweenie
    Detona Ralph
    ParaNorman
    Piratas Pirados!

Melhor trilha sonora original

Quem ganha: As Aventuras de Pi
Quem pode ganhar: Lincoln
Quem deveria ganhar: As Aventuras de Pi

    Dario Marianelli – Anna Karenina
    Alexandre Desplat – Argo
    Mychael Danna – As Aventuras de Pi
    John Williams – Lincoln
    Thomas Newman – 007 – Operação Skyfall

Melhor canção original

Quem ganha: Skyfall
Quem pode ganhar: Skyfall
Quem deveria ganhar: Skyfall

    “Before My Time” – Chasing Ice
    “Everybody Needs A Best Friend” – Ted
    “Pi’s Lullaby” – As Aventuras de Pi
    “Skyfall”- 007 – Operação Skyfall
    “Suddenly” – Os Miseráveis

Melhores efeitos visuais

Quem ganha: As Aventuras de Pi
Quem pode ganhar: Os Vingadores
Quem deveria ganhar: As Aventuras de Pi

    O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
    As Aventuras de Pi
    Os Vingadores
    Prometheus
    Branca de Neve e o Caçador

Melhor maquiagem

Quem ganha: O Hobbit
Quem pode ganhar: Os Miseráveis
Quem deveria ganhar: O Hobbit

    Hitchcock
    O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
    Os Miseráveis

Melhor fotografia

Quem ganha: As Aventuras de Pi
Quem pode ganhar: Skyfall
Quem deveria ganhar: As Aventuras de Pi

    Anna Karenina
    Django Livre
    As Aventuras de Pi
    Lincoln
    007 – Operação Skyfall

Melhor figurino

Quem ganha: Anna Karenina
Quem pode ganhar: Lincoln
Quem deveria ganhar: Anna Karenina

    Anna Karenina
    Os Miseráveis
    Lincoln
    Espelho, Espelho Meu
    Branca de Neve e o Caçador

Melhor direção de arte

Quem ganha: Anna Karenina
Quem pode ganhar: Lincoln
Quem deveria ganhar: Lincoln

    Anna Karenina
    O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
    Os Miseráveis
    As Aventuras de Pi
    Lincoln

Melhor documentário

Quem ganha: Searching for Sugar Man
Quem pode ganhar: The Gatekeepers
Quem deveria ganhar: The Gatekeepers

    5 Broken Cameras
    The Gatekeepers
    How to Survive a Plague
    The Invisible War
    Searching for Sugar Man

Melhor documentário de curta-metragem

Quem ganha: Open Heart
Quem pode ganhar: Mondays at Racine
Quem deveria ganhar: –

    Inocente
    Kings Point
    Mondays at Racine
    Open Heart
    Redemption

Melhor montagem

Quem ganha: Argo
Quem pode ganhar: A Hora Mais Escura
Quem deveria ganhar: A Hora Mais Escura

    Argo
    As Aventuras de Pi
    Lincoln
    O Lado Bom da Vida
    A Hora Mais Escura

Melhor curta

Quem ganha: Curfew
Quem pode ganhar: Asad
Quem deveria ganhar: Curfew

    Asad
    Buzkashi Boys
    Curfew
    Death of a Shadow (Dood van een Schaduw)
    Henry

Melhor curta animado

Quem ganha: Paperman
Quem pode ganhar: Head over Heels
Quem deveria ganhar: Fresh Guacamole

    Adam and Dog
    Fresh Guacamole
    Head over Heels
    Maggie Simpson in “The Longest Daycare”
    Paperman

Melhor edição de som

Quem ganha: Argo
Quem pode ganhar: Skyfall
Quem deveria ganhar: Skyfall

    Argo
    Django Livre
    As Aventuras de Pi
    007 – Operação Skyfall
    A Hora Mais Escura

Melhor mixagem de som

Quem ganha: Os Miseráveis
Quem pode ganhar: Skyfall
Quem deveria ganhar: Os Miseráveis

    Argo
    Os Miseráveis
    As Aventuras de Pi
    Lincoln
    007 – Operação Skyfall

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Cinema brasileiro vs. Globo Filmes

Guilherme Lobão

O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, lançado pela Vitrine Filmes

Até que a Sorte nos Separe, de Roberto Santucci, lançado pela Globo Filmes

Tem sido muito comum estar numa conversa e, sem mais nem menos, alguém me atiçar: “O que você acha do cinema brasileiro?”. Na hora minha vontade é de sair correndo. Isso porque a expectativa dos amigos e colegas que têm me endereçado esta pergunta tão genérica é a de ouvir minhas opiniões sobre os filmes brasileiros que eles têm visto. E eles, na maioria, não frequentam mostras, festivais ou circuitos como Itaú Cinemas e Cine Cultura Liberty Mall. Ou seja, eles querem saber o que acho da produção industrial da Globo Filmes. São só esses os exemplos que conhecem.

É um cenário triste pra mim, que adoro conversar sobre cinema. Não é culpa deles. Frequentadores ocasionais das salas do Cinemark e telespectadores adestrados pelo sistema Globo, entendem por cinema brasileiro aquele que cai no colo, cuja propaganda repete-se como mantra nos intervalos da novela e dos telejornais, cujos trailers antecedem os blockbusters e que, depois (ou antes) tornam-se seriado ou minissérie para a TV. Até na bilheteria do cinema sofri bullying inverso quando fiz careta quando o atendente me ofereceu assistir a Até que a Sorte Nos Separe: “Você não gosta de cinema brasileiro?”. Como explicar?

Fui inventar de falar que alguns dos melhores filmes que vi ano passado eram brasileiros. Especificamente, pernambucanos: O Som ao Redor e Eles Voltam. Sei que, aqui em Brasília, em 2012, só viu quem pegou a sessão única do primeiro na tarde de sábado ou domingo do Festival de Brasília; ou conseguiu ver o segundo em uma das três sessões no meio da semana. Como posso condená-los?

Eis que O Som ao Redor estreou em janeiro (umas duas semanas depois de Rio, SP e Recife). Fiz minha campanha pessoal para instigar esses amigos a verem. “O problema é que o filme não tem ninguém”. Ainda tentei falar de Irandhir Santos (“é o Fraga de Tropa de Elite 2!”). Em vão. Não é o Wagner Moura. As sessões nas pequenas salas do Cine Cultura bravamente continuam (em um único horário, parece-me). No Cinemark, passou durante a primeira semana só pra constar. O Itaú ainda conseguiu esticar por um mês.

Eles Voltam, segundo anunciou o colega pernambucano Luiz Joaquim (cinemaescrito.com), parece que felizmente fechou distribuição e deve estrear comercialmente. É imperdível, viu gente!

Na Band News FM, onde mantenho uma coluna de cinema, os ouvintes estão cansados de me ouvir reclamar de Globo Filmes. Não porque sou perseguidor da indústria cinematográfica do Projac – compareço às cabines de imprensa e divulgo em meu programa, como a qualquer outro.

Foram as palavras de Kleber Mendonça Filho, crítico e diretor pernambucano, que me levam a escrever essas linhas. Ele resume com mais eloquência e elegância do que eu poderia o que a Globo Filmes representa no debate abaixo.

Antes, deixe-me contextualizar:

Kleber havia alfinetado a Globo Filmes (como já o fizera várias vezes enquanto crítico) em uma entrevista à Folha: “Minha tese é a seguinte: se meu vizinho lançar o vídeo do churrasco dele no esquema da Globo Filmes, ele fará 200 mil espectadores no primeiro final de semana”

Furioso, o diretor-executivo da companhia, Cadu Rodrigues, propôs publicamente o seguinte  desafio a Kleber:

“Desafio o cineasta Kleber Mendonca Filho a produzir e dirigir um filme e fazer 200 mil espectadores com todo apoio da Globo Filmes! Se fizer nada do nosso trabalho sera’ cobrado do filme dele. Se não fizer os 200 mil assume publicamente que como diretor ele e’, talvez um bom critico. Vamos ao desafio caro diretor……
Este email e’ publico!
Cadu Rodrigues”

E eis a resposta de Kleber (com a qual encerro essa minha reflexão destrambelhada)

“Olá Cadu
Estava em trânsito o dia inteiro, cheguei em Istambul onde O Som ao Redor será exibido nos próximos dias. O Facebook e a imprensa fervilham com nosso embate. Preciso lhe agradecer pelo desafio, mas sua proposta associa a não obtenção de uma meta comercial (200 mil espectadores) como prova irrefutável de que eu não seria um cineasta. Isso não me parece correto, pois o valor de um filme, ou de um artista, não deveria residir única e exclusivamente nos número$. Sobre ser crítico ou cineasta, atuei como ambos e meu discurso permanece o mesmo, e sempre foi colocado publicamente, e não apenas em mesas de bar: o sistema Globo Filmes faz mal à idéia de cultura no Brasil, atrofia o conceito de diversidade no cinema brasileiro e adestra um público cada vez mais dopado para reagir a um cinema institucional e morto. Devolvo eu um outro desafio: Que a Globo Filmes, com todo o seu alcance e poder de comunicação, com a competência dos que a fazem, invista em pelo menos três projetos por ano que tenham a pretensão de ir além, projetos que não sumam do radar da cultura depois de três ou quatro meses cumprindo a meta de atrair alguns milhões de espectadores que não sabem nem exatamente o porquê de terem ido ver aquilo. Esse desafio visa a descoberta de novos nomes que estão disponíveis, nomes jovens e não tão jovens que fariam belos filmes brasileiros que pudessem ser bem visto$, se o interesse de descoberta existisse de membro tão forte da cadeia midiática nesse país, e cujos produtos comerciais também trabalham com incentivos públicos que realizadores autorais utilizam. Não precisa me incluir nessas novas descobertas, gosto do meu estilo de fazer cinema. Ainda estou no meio de um grande desafio com O Som ao Redor, 9 cópias 35mm, mais algumas salas em digital, chegando aos 80 mil espectadores em 8 semanas, e com distribuição comercial em sete outros países. A maior publicidade de O Som ao Redor é o próprio filme. Para finalizar, esses embates são importantes, fazemos cinemas diferentes, em geografias diferentes. Obrigado, tudo de bom. Kleber”

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Os mundos de Tarantino

Cães de Aluguel

Por Guilherme Lobão

Há vários mundos (porque não universos) no cinema de Quentin Tarantino. E, por isso, faz-se tão necessária a mostra definitiva deste mestre do cinema pop contemporâneo que o Centro Cultural Banco de Brasil (CCBB) apresenta em Brasília (15 de fevereiro a 17 de março), São Paulo (20 de fevereiro a 15 de março) e Rio de Janeiro (25 de feveriro a 15 de março).

Pulp Fiction – Tempo de Violência

Com curadoria de Marcos Kurtinaitis, coordenador de programação do Cinusp, Mondo Tarantino tem ao menos três intenções: apresentar a obra completa do diretor norte-americano (obviamente à exceção de Django Livre, atualmente em cartaz no circuito comercial de cinema); suas colaborações (enquanto produtor ou roteirista) e filmes que o influenciaram.

Jackie Brown

Cinéfilos mais atentos sabem que as influências de Tarantino compõe a gênese de seu cinema. O trabalho estético do diretor bebe explicitamente nas fontes dos seus ídolos de juventude e de sub-gêneros, como blaxploitation, western spaghetti, o yakuza, o filme B norte-americano… a lista é longa.

Kill Bill Vol. 1
Daí a importância de se assistir a alguns desses filmes, cuja programação contempla obras tão diversas quanto a comédia de monstros Abbott e Costello às Voltas com Fantasmas; o faroeste Django, de Sergio Corbucci; o clássico sexploitation Faster, Pussycat! Kill Kill, de Russ Meyer; o blaxploitation filipino Black Mamma, White Mamma, de Eddie Romero; O Mestre da Guilhotina Voadora, de Yu Wang; e outros filmes com quem Taratino dialoga diretamente para imprimir sua visão pop contemporânea.
Kill Bill Vol. 2
Resultaram em obras como Cães de Aluguel (1992), Pulp Fiction – Tempo de Violência (1994), Grande Hotel (1995, no segmento The Man From Hollywood, o melhor, vale dizer), Jackie Brown (1996, estrelado pela musa do blaxploitation Pam Grier), Kill Bill Vol. 1 (2003), Kill Bill Vol. 2 (2004), Sin City (2005, onde dirige um dos trechos mais nonsenses e hilários do filme de Robert Rodriguez e Frank Miller), À Prova de Morte (2007, dentro do projeto Grindhouse, dividido com Rodriguez) e Bastardos Inglórios (2009). 
À Prova de Morte (projeto Grindhouse)

Além desses, ainda serão exibidos dois episódios de TV dirigidos por ele para as séries CSI e E.R., e longas que produziu ou roteirizou, como Um Drink no Inferno (1996, de Rodriguez); Amor à Queima-Roupa (1993, de Tony Scott) e Assassinos por Natureza (1994, de Oliver Stone).

Bastardos Inglórios

São 48 filmes distribuídos em menos de 1 mês de sessões. Portanto, a concorrência para assistir a Pulp Fiction e Cães de Aluguel em 35mm, por exemplo, será grande. Particularmente, acharia mais interessante uma mostra focada no trabalho particular de tarantino e suas colaborações. Por exemplo, sinto falta do humor negro Eles Matam, Nós Limpamos (1996), que adoro. Temo que, com essa profusão de títulos, a mostra corra o risco de ficar um tanto rarefeita. Mas aí é capricho meu. O bom é mesmo que poderemos mergulhar no sangrento mundo tarantinesco e sair de alma lavada do outro lado.

Veja a programação completa aqui

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As Sessões escapa do choro fácil das cinebiografias de superação

Helen Hunt e John Hawkes: entrega despudorada aos seus personagens


Por Guilherme Lobão

Cinebiografias de pessoas que sobrepujam limitações físicas severas em nome da arte costumam ser filmes de choro fácil. Daqui do topo da caixola, lembro de Meu Pé Esquerdo, O Escafandro e a Borboleta e Shine – Brilhante (a lista é longa se você se dedicar a uma pesquisa rápida ou tiver memória melhor que a minha). Agora, engrossa a lista As Sessões, que ao contrário dos elencados anteriormente, não busca a todo custo a adesão sentimental do espectador.

A produção dirigida por Ben Lewin, que estreia nesta sexta-feira nos cinemas, consegue com grande habilidade evitar armadilhas da pieguice ao narrar a história verídica do poeta e jornalista Mark O’Brien, vítima de uma paralisia infantil aos 6 anos de idade que o prendeu a uma maca e o deixou dependente de um pulmão de aço – equipamento que o ajuda a respirar. O’Brien tornou-se requisitado articulista na Califórina, escrevendo apenas com o movimento de sua cabeça – ele digita com a boca, utilizando uma varinha. Aliás, este filme é baseado no seu artigo autobiográfico On Seeing a Sex Surrogate.

Dono de uma escrita lúdica, quase adolescente, a poesia de O’Brien poderia facilmente dar ao filme o tom inocente dos seus versos. Lewin mostra grande respeito pelo trabalho de O’Brien, mas seu interesse é contar a curiosa história de sua vida sexual. Embora sem movimentos abaixo do pescoço, ele possuía sensibilidade que, tecnicamente, o permitia se relacionar sexualmente. Faltava-lhe namorada.

Essa boa premissa, a intrepidez e entrega da dupla de protagonistas (John Hawkes, de Inverno da Alma; e a um tanto sumida Helen Hunt) fortalecem o filme. Hunt se despe de pudores (e de roupa) e mergulha na personalidade da anacrônica terapeuta Cheryl. Seu tratamento consiste em prestar serviços de psicanálise e sexuais (na prática) a pessoas com deficiência física. Com todas as palavras, ela transa com eles por dinheiro. Mas são sessões terapêuticas Ideologicamente, ela não é uma prostituta – ela elenca suas justificativas na trama. 



William H. Macy: padre encoraja realização carnal


Aliás, essa dubiedade nos personagens é o que mais gosto no filme. A não prostituta que faz sexo por dinheiro e o padre (William H. Macy), que o encoraja a perseguir seu desejo carnal de perder a virgindade fora do casamento, mesmo em desacordo com a doutrina da Igreja.


Portanto, eis que da historinha de superação do poeta, surge um escopo mais instigante e motivo pelo qual As Sessões consegue se apresentar um drama seguro. Por outro lado, tão seguro que prende-se a uma linearidade, com as emoções excessivamente, observando o risco melodramático à espreita. Endurece tanto o envolvimento com os personagens, que não importa a resolução. Simplesmente, não conseguimos sofrer com eles.

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O Lado Bom da Vida: além da autoajuda

Por Anna Beatriz Lisbôa

David O. Russell sempre se mostrou atraído pelo disfuncional e, em sua filmografia, vem explorando – com resultados interessantes – tanto o aspecto cômico (Huckabees) quanto o aspecto trágico (O Vencedor) da questão. Em O Lado Bom da Vida, adaptado do livro de Matthew Quick, ele opta por mesclar os dois pontos de vista. Russell nos leva ao centro da confusão mental dos personagens principais, criando situações desconcertantes, que ora despertam pena, ora levam ao riso. Ao contrário de Pequena Miss Sunshine, que celebra com ingenuidade reconfortante as esquisitices da família protagonista, Russell parece não ter ilusões em relação a seus personagens.

Ele nos apresenta Pat (Bradley Cooper) no momento em que ele está deixando o hospital psiquiátrico, onde passou oito meses internado após um surto desencadeado pela traição da mulher. O fim da internação não significa o fim do tratamento. O ex-professor ainda tem um longo caminho até tornar-se socialmente apto novamente. A mudança para a casa dos pais, Dolores (Jacki Weaver) e Pat Sr.(Robert de Niro) – um torcedor fanático do time de futebol americano Philadelphia Eagles – e a reabilitação não acontecem de forma pacífica. Obcecado pela com a ideia de reconquistar a ex-mulher e recusando-se a tomar seus medicamentos, Pat tem explosões violentas e se conduz de maneira descontrolada. Nessas condições, ele é convidado para um jantar na casa do amigo Ronnie (John Ortiz), que vive aquele conhecido desespero silencioso da vida suburbana com a mulher Veronica (Julia Stiles). Lá ele encontra a irmã de Veronica, Tiffany (Jennifer Lawrence), uma jovem viúva que teve um surto ninfomaníaco após a morte do marido.

E é nesse ritmo turbulento que Russell inicia O Lado Bom da Vida. A câmara inquieta acompanha os monólogos raivosos e surtos de Pat, que altera-se pelas razões mais aleatórias – seja o final inaceitável de Adeus às Armas, de Ernest Hemingway, até a música de seu casamento My Cherie Amour, de Stevie Wonder, que funciona como gatilho para suas reações mais intensas. A trilha sonora, inclusive, dita o ritmo de algumas cenas importantes, como o momento em que Pat acorda os pais no meio da madrugada em busca do VHS de seu casamento. Ao som de What Is and What Should Never Be, do Led Zepelin, vemos Pat perdendo progressivamente o controle – assim como a canção alterna o vocal suave de Robert Plant com o refrão pesado e repentino.

Pat tem um conceito baixo de Tiffany – algo que ele deixa claro com sua forma truculenta de se expressar. Tiffany, por sua vez, é manipuladora e parece até mais perigosa do que Pat, por ser totalmente imprevisível. Ela é capaz de convidar Pat para fazer sexo sem o menor constrangimento depois do jantar desastroso na casa da irmã – convite que ele recusa prontamente para manter-se fiel à esposa – e mostrar a maior timidez quando o chama para ser seu parceiro de dança em uma competição.

O roteiro de David O. Russell é engenhoso ao entrelaçar os três elementos-chave no filme: a bipolaridade dos protagonistas, o fanatismo do esporte e a dança como a maneira que os protagonistas encontram de interagir. Jennifer Lawrence é um fenômeno, fazendo as transições entre os diferentes estados de humor de Tiffany com a graça e a estranheza que definem o personagem. Bradley Cooper encontrou o tom perfeito para Pat, que intimida pela força física, mas beira o patético com seu otimismo desmesurado.

De Niro volta a impressionar com sua interpretação do pai apostador, que chegou a ser banido dos estádios por comportamento violento. Por meio de gestos discretos, entendemos a dimensão da loucura de Pat Sr. pelo time. E não é apenas fanatismo – além de supersticioso, Pat Sr. tem transtorno obsessivo compulsivo em relação a tudo que envolve futebol – para ele, os Eagles vencerem os Giants é uma questão tão real quanto os problemas domésticos.

Se o filme inicia no mesmo passo irrequieto que reflete o estado mental de Pat, a trama vai se ajustando em um ritmo mais convencional a partir do momento em que o relacionamento entre Pat e Tiffany fica menos tempestuoso. O roteiro, (ironicamente) muito bem equilibrado, quase consegue mascarar o fato de que O Lado Bom da Vida é basicamente uma comédia romântica, que beneficia-se de um excelente trabalho de atuação e direção.

Publicado na Revista Moviola

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